Defendendo Mary

por Misha Gibson, que ainda não foi.

171 Todo Dia

Quarta, 26 De Dezembro De 2018 ás 06:00

Defendendo Mary

Créditos: Warner Bros/Walt Disney Studios

Defendendo Mary

Tenho ido ao cinema. Mais do que isso, tenho ido ao cinema com a minha mãe, o que é esplêndido. Quero dizer que não sou crítica de cinema, não sou letrada, por assim dizer, em cinema; mas como espectadora, posso dizer um pouco sobre os filmes que vejo.

Assisti o filme nacional 'O Grande Circo Místico', que era um candidato a concorrer ao Oscar. E eu, ao mesmo tempo em que me perguntava como o filme poderia concorrer ao Oscar, tentava entender quando a decadência poderia ser um bom mote de uma história. No fundo achei que o filme foi um prenuncio de (nova) morte do cinema nacional. Se um filme tão esperado e tão promissor pode virar aquilo, quiçá roteiros menos pretensiosos. Achei o filme grosseiro, raso, caricato e sem nenhum encanto. Mística foi a escolha do nome da película, remetendo a uma comédia romântica dos anos 60, que na verdade é um drama burlesco e agressivo.

Mas, nem só de decepções vivemos no cinema neste finalzinho de ano. Assistimos 'As viúvas', filmão. Uma boa história empoderando, por assim dizer, as mulheres. Definindo, por assim dizer, o que na verdade elas querem da vida: sossego. Ângulos de câmeras muito interessantes, atores maravilhosos, fotografia que funciona e flashbacks realizados de maneiras sutis para o bom entendimento da trama. Viola Davis é um arraso.

Assisti também, sem minha mãe desta vez, Aquaman. O que dizer de Jason Momoa e seu orgulho polinésio? Finalmente, um filme da DC que me entreteve. Teve explosões, perseguições, mundo mágico, criaturas bizarras que não deixavam o CGI estourado. Li em algum lugar que o filme é machista. E eu digo, para quem estava preocupado com isso, que o filme é na verdade feminista. Ou, caso prefira, é uma referência aos dias atuais, com mulheres lutando para serem reconhecidas além do seu papel de doçura e beleza. Atlântida é um mundo à parte. Dolph Lundgren com cabelos rosas e temeroso foi hilário. Willem Dafoe cai muito bem como o mentor de Aquaman. Mas, Patrick Wilson e Amber Heard são os pontos fracos, mas não comprometem a diversão. A história incidental de Aquaman não funciona muito bem também, mas é tão pequena que até dá pra perdoar, ou talvez o fim do filme tenha me dado uma sensação de redenção da desconexão dos pais do herói. Não posso deixar de notar que ficamos esperando a aparição de Stan Lee no filme. Triste lembrar que ele se foi esse ano.

E por último, mas longe de desimportante, 'O retorno de Mary Poppins'. Os fãs nerds que me desculpem, mas o filme que me levou de volta a infância foi a sequência mais legal que vi este ano. Voltar para aquela atmosfera dos anos 60, com temas pesados tocados com a leveza de uma semente de dente de leão, o visual de Londres, as cores pastéis nostálgicas aliados a inocência que o filme tem esmero em preservar é um alento no mundo atual. Podemos ser crianças a qualquer tempo, diz o filme. Podemos ter saudade sem ter mágoas, diz o filme. Podemos deixar o passado para trás, olhando o futuro, tendo esperança, diz o filme. E, embora o filme não tenha nenhuma história mirabolante - as intempéries nada mais são do que intempéries, que com coragem podemos dissecar, reduzir e solucionar - eu chorei do começo ao fim do filme. Resgatar minha infância, validar minhas crenças e relembrar que a inocência vive mesmo na dureza da vida... Tudo isso me fez viajar para um outro tempo, uma outra vida e me fez querer mais. Como foi bom ver Dick Van Dyke exuberante ainda! Como foi inusitado ver Merryl Streep mais hippie do que em Mamma Mia! Como é bom ver a misturinha do contemporâneo com o passado.... Como é bom ver mágica em um filme! Pode ser que só é tenha gostado do filme, minha mãe achou água com açúcar, o pequeno nem fez questão de entender, mas saí feliz do cinema.

E então volto para onde comecei. O que faltou no primeiro filme desta pequena resenha é o que abunda no último. Se for para reviver um passado, que seja nostalgicamente, que seja com esperança, que seja com leveza, que seja sutil, que seja feliz. E se for para ser contemporâneo, que exista coragem, que exista humor, que exista representatividade, que exalte as diferenças como pontos fortes mais do que negativamente. Que venha 2019 com mais filmes incríveis para eu ter mais vontade de falar.


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